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29 de Janeiro de 2010

Segredos de Cabral

Esta coluna é um presente para Mariô e Veri.

Em Cabrália todo mundo sabe quem descobriu o Brasil, sabem até mais do que isso.

Assim que cheguei à igrejinha da cidade, linda e bem cuidada por sinal, os guias mirins, vestidos de intelectuais a baiana vieram com esta: “Quer saber os segredos que nem Cabral sabia?”

Enquanto meus neurônios processavam a informação, eu admirava aquele baianinho nos trinques, de cabelo sarará penteado para trás (haja gel Bozzano). Vi a nossa balsa chegando lá embaixo.

Não vai dar tempo, pensei. Eu sabia que não ia dar tempo de conhecer a igrejinha enquanto esperávamos a balsa. Sabia que perderíamos novamente, mas e daí? Estamos de férias.

Não sei se para brincar com os mais metódicos da turma, senti quase um prazer ao ter a certeza de que mais uma vez seríamos o primeiro da próxima e não o último carro desta balsa. Senti prazer ao saber que às vezes é bom que as coisas saiam desplanejadas, atrapalhadas.

Seria este o tal segredo do Cabral?

O cabelinho sarará Bozzano continuava me seguindo e derrubando uma avalanche de informações históricas que já usavam muletas. Eram a história das telhas nas coxas, as naus de Cabral...

Mas ai ele botou minha duvida para sofrer. “Ta vendo aquele ovo ali, debaixo da cruz da igreja do Cabral, aquele é o ovo do Colombo, bom, mas isso é obvio né, isso você já deve imaginar”, mal acabou a frase, viu uma turma de gringos, que de tão gringos reluziam e saiu saltitante sem mexer nem um fio do cabelo atrás deles. Louco para trocar alguns segredos do Cabral por notinhas verdes e me deixou lá a imaginar os tais segredos.

Eu fiquei parada, olhando para o ovo, para a balsa e para a lógica que aparentemente só eu é que não entendia, entre um ovo que botou uma cruz e a cidade do Cabral.

Estávamos quase conseguindo perder a balsa quando os mais atentos nos enfiaram no carro e em menos de 2 minutos cronometrados no relógio estávamos dentro do Tufão (simpático nome do barquinho que puxava a balsa), o último carro da balsa.

O outro carro, a outra metade dos amigos ficou lá, no porto, sem pressa, sem regras, curtindo a única vez em que o último chega antes do primeiro. Pediram uma cervejinha e sentaram a beira do caminho.

Alguns dias se passaram e no calendário o que havia passado era mesmo o ano. Fomos comer no tal melhor restaurante da cidade. Segundo informações ficava no alto do outro lado da igreja, este era o endereço.

Subimos, subimos,subimos e nada.

Abri a janelinha do carro e quando vi, tava tudo cheio de céu. A única via iluminada era a via láctea. Depois de dois minutinhos baianos encontramos um restaurante cheio de luz branca, com cadeiras de plástico, um cantor e uma família de mais de vinte pessoas, todos falando ao mesmo tempo. No cardápio alguns pratos especiais, o melhor era o “Risoto The Chicken”. Como não adorar um lugar assim?

Estávamos novamente em dois carros, alguns pontos de vista. Da nossa mesa a única coisa que se via era o mar iluminado pela lua com alguns pontinhos manchando o céu, eram estrelas.

O carro mais apressado não gostou muito e foi dar uma voltinha. Nós, os mais bobos, ficamos ali, olhando o mar, a lua e o homem simples que, com a filha no colo cantava um samba apaixonado para a mulher sentada a sua frente.

A Mariô pediu uma cerveja. Tomei enquanto olhava o marido dar um show de carinho e elegância. Entre uma musica e outra ia até a mesa gigante, dava um beijo na mulher, comia um franguinho a passarinho e sorria aquele sorriso aberto de quem trabalha todo dia para construir esta felicidade de dar água nos olhos e silêncio na boca.

A comida chegou e para ser franca não lembro bem se era boa ou ruim, também não me lembro da cadeira de plástico e nem da iluminação, o que lembro foi que naquele dia vi casais felizes, sem maquiagem, sem teorias, sem explicações científicas, simples assim, mas que só pessoas bobas, como nós, somos capazes de entender.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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