28 de Fevereiro de 2008
UM DIA NA VIDA DE UMA MULHER
Acabara de assinar o contrato de seu novo apartamento. Era real, aquela caneta bic assinou seu sonho com sangue azul. O logradouro ficava numa rua tranqüila do Itaim. Poderia pedalar até a Yoga e o trabalho, não na sua Caloi-Ceci cor de rosa, que depois de anos recebeu aposentadoria e transformou-se em escultura retrô na sala de estar.
Dhalia era uma mulher entre tantas, poderia se chamar Renata, Roberta ou Juliana, mas uma coisa a diferenciava de outras, o gosto pelo passado que, se gundo ela, durava mais, podia ser eterno como as canetas bic, os cinzeiros de elevador, as garrafas de vinho do Porto e suas fotos PB. Ela não usava câmera digital. Continuava seu trabalho como o fazia há mais de quinze anos, comprava o filme do Sr. Giuseppe e passava dias fechada no silêncio vermelho de seu laboratório.
A dança e a fotografia eram seu marido e seu amante, chegavam a brigar entre si para ter sua atenção e muitas vezes perdiam ao encontrar em algum rolo de filme guardado lembranças de uma viagem, um amor de verão que durou mais do que o esperado e agora se revelava novamente por trás de um por do sol cinza.
Com o contrato na mão, sorriu para si, para sua liberdade, para o futuro tocando Debussy sozinha enquanto olhava a lua. Sozinha, nunca solitária. Pegou o celular para contar a ele e viu que a as teclas não estavam funcionando ou ela ainda não havia se acostumado ao novo modelo, são tantos, cada dia mais novos, com mais aplicativos que ela nunca aprendia a usar e quando aprendia logo aparecia um novo modelo e o ultimo virava passado. Foi assim também com a televisão e o computador. Esse mundo moderno a assustava. Ela não queria ver seus livros redusidos a CDs, o que seria do cheiro das paginas antigas do “Amor nos tempos do Colera” comprado na Ateneo de Buenos Aires?
Tantos homens tentaram convencê-la a ser também como a tecnologia, mutante, inovadora e descartável, mas Dahlia era como sua Leica, as vezes pesava um pouco, era contraditória e fria, parecia impenetrável, mas por dentro tinha doçura, ainda que defendesse com uma revolta ácida e as vezes feroz, guardava sua doçura genuína conhecida por poucos.
Estava atrasada para deixar o que passou para trás, as memórias iriam para os álbuns e seus passos para frente. Guardou os papéis na pasta, olhou de novo a vista da nove de julho e da sua cidade. Caminhou até a porta sem olhar para trás e entrou no elevador.
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