27 de Maio de 2009
As primeiras pedaladas
As perninhas finas ainda inseguras bambeavam na hora de procurar o pedal. O parque estava vazio e as poucas pessoas que caminhavam ou descansavam por ali, estavam, segundo ele, assistindo as suas primeiras pedaladas.
Vamos lá,dizia a mãe, concentre-se onde você quer chegar, o resto não importa. Olhe para frente e pedale, acredite,você consegue. A mãe era apenas uma, as palavras eram de todas, de cada mãe aflita, sentindo-se responsável por todos os medos, os perigos e as decisões de seus filhos.
O vento quente do verão soprava um pouco de coragem no menino que contava seis anos até aquele dia. Com a força de quem tenta apertar o medo para fora, segurava no guidão. As mãozinhas suadas já estavam vermelhas. Dentro do corpinho magro, uma força que só a infância é capaz de nutrir. A crença de que ele, apenas ele, é o centro do universo e à seu lado, em todos os lados está, ela.
Vamos meu filho, eu vou ao seu lado, fico te segurando, e quando você achar que está pronto eu te solto. Nestas palavras estava guardado todo o sentido da vida de uma mãe. A vontade de ver seus filhos ganhando o mundo, o medo de vê-los cair ainda que saibam tão bem que, sem cair não se aprende a levantar. A força da mulher que corre ao lado de quem ama. A mulher que luta contra tudo e todos, até com o medo do filho, mas não para, continua na estrada até o momento exato em que não se sabe como, ela sente, ainda que sem querer saber, que é hora de solta-lo, de deixá-lo ir mais longe.
Ela olhava para o rosto do filho e via a determinação de quem acredita que o mundo é seu, vive por você. De repente, em silencio, olhou para ele e sentiu que estava pronto. Começou a empurrar a bicicleta. As perninhas dele giravam sem parar, a expressão era a de um campeão, de um homem conseguindo superar o mundo, o seu mundo, o seu medo. Ela corria e ele sabia que não precisava ter medo, ela estava lá, bastava pedalar e na hora certa ele estaria sozinho.
Já estavam quase no meio da rua, mas a mãe estava no começo de um novo tempo. Ela viu o dia em que o menino nasceu, lembrou dos primeiros passos, das noites sem dormir, da pior noite de sua vida quando uma febre de mais de quarenta graus e uma convulsão por febre trouxeram os muitos fios de cabelos brancos. Vamos mamãe, corre, corre!
Ela corria, notou que as mãos do filho já não apertavam tanto o guidão, os ombros estavam um pouco mais relaxados. Olhou para ele e soltou. A bicicleta deu uma balançada. O coração dela acelerou. Vai meu filho, vai. Ele foi sem olhar para trás.
De longe ficou assistindo calada, acompanhada do prazer que só quem é mãe sabe, da felicidade de estar ali naquele momento para ver seu filho cruzando mais uma linha de chegada.
Vamos mamãe, agora eu já sei pedalar, vamos buscar sua bicicleta, eu vou com você pedalar nas trilhas.
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