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26 de Março de 2009

APRENDENDO A SER INFELIZ

“As famílias felizes são todas iguais, as infelizes o são cada uma a sua maneira.”

Adoro pegar um livro na minha estante e ler as primeiras linhas. Acho incrível como alguns livros trazem a estória nas primeiras palavras. Como é difícil escrever as primeiras frases de uma estória.

O começo de Ana Karenina foi um dos melhores começos que já li. Quanta verdade cabe entre tão poucas palavras.

Começos carregam um peso enorme, além de serem escritos em paginas totalmente brancas, guardam a responsabilidade de se saberem eternos. Não me lembro de alguém falar sobre “o melhor meio de livro, ou o melhor meio do filme ou ainda o melhor meio de um relacionamento”. A estória, seja na vida real, seja nos livros, se cria sozinha, desenrola e traça seu caminho, o começo e o final têm que ser escrito por nós, cada um à sua maneira.

É verdade, porém, que a felicidade é quase simplória. Uma tarde ensolarada, um beijo, pessoas queridas e para ficar melhor, um sorvete de framboesa. Você pode até mudar o sabor do sorvete, mas a felicidade será a mesma. Com a tristeza tudo muda, o mundo vira de pernas para o ar. O pior é que só mesmo o nome “infelicidade” é o oposto da tal felicidade. O significado é muito mais complexo.

Um dia chuvoso, solitário, e sem sorvete, pode ser o oposto, mas está longe de ser a infelicidade. A tristeza é tão misteriosa e sádica que pode se manifestar em alguém exatamente pelo mesmo motivo que a felicidade. No amor é assim. Existem pessoas que sofrem por amar, enquanto outras amam por saber

Tenho uma amiga que é casada há pouco mais de um ano, tanto ela quanto o noivo são apaixonados. Ela, a minha amiga, se diz vivendo um sonho acorda feliz por estar ao lado do homem que ama. O noivo, que virou marido, vive com uma culpa agarrada em sua alegria, acredita que nasceu para ser infeliz. Outro dia me disse que achava que não merecia a mulher que tinha que não era possível, morria de medo de ver mais um casamento acabando (ele estava no terceiro). Os dois vivendo o mesmo sonho, cada um sentindo a sua maneira.

Ser infeliz é grandioso, misterioso e acredite tão importante quanto ser feliz, mas ser infeliz é também uma arte, algo que exige esforço e conhecimento. É preciso saber quando estamos infelizes, saber por que estamos infelizes, e aprender com isso. É bem diferente de se projetar infeliz, se criar infeliz, ou pior, acreditar ser infeliz por motivos completamente inválidos.

Infelicidade é coisa séria. Infelicidade é inspiração de poetas, força para quem precisa um empurrãozinho para virar a mesa. Infelicidade é para os fortes, para quem tem um livro de paginas em branco esperando para ser escrito. “É melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe...” Se é tão bom ser feliz, porque é que tanta gente escolhe ser triste? Sim, escolhe, pois é muito diferente sofrer por um problema, pela falta de quem morreu, pela saudade, mas sofrer por ter felicidade...

A verdade é que para ser feliz é preciso saber ser infeliz, é preciso saber que somos feitos para morrer e renascer muitas vezes. E que a cada vez que aprendermos a andar de novo depois de um tombo, levantaremos mais fortes, mas se ficarmos chorando no chão, não só, não vamos levantar como seremos deixados para trás pelos que continuam.

Falar de felicidade parece livro de auto-ajuda, pois todos sabem bem a receita. E se sabemos tão bem, porque então vivemos em busca da felicidade? Eu acho que está na hora de aprendermos um pouco com este sentimento forte e maravilhoso, que é a tristeza.

Fotos: fonte Wikipédia

 


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