25 de Outubro de 2008
CRÔNICAS DA VIDA PAULISTANA
Estava eu tomando café da manha num delicioso domingo paulistano. Notei o cenário perfeito para meu joguinho preferido. Intromissão em vidas alheias (apenas telepática, logicamente).
O restaurante e especialista em cafés, tem de todo canto do mundo. Um paraíso para os apreciadores, grãos por todo lado. Eu não tomo café, mas adoro o suco de maçã com gengibre de lá, e claro, o cheirinho dos grãos moídos na hora misturados a intrigas, brigas e pazes que acontecem todos os dias em todo canto do mundo. No Santo Grão não seria diferente.
Na mesa ao lado tinha um jovem com cara de menino mimado, daqueles que usa camisa pólo com gola levantada para combinar com o nariz empinado. Estava meio cabisbaixo, sentado sozinho. Não deve ter muita intimidade consigo. Leva tempo conhecer alguém, e ele, parecia daqueles que nunca perdia tempo com ele mesmo. Pegou logo o telefone quando me viu olhar para ele. Queria que eu soubesse que não estava sozinho, tinha muitos amigos, era parte de um grupo.
Opa, a garçonete simpática trouxe meu suco e já veio com o bloquinho pronto para anotar meu pedido. Estava louca para me fazer comer, beber, pagar e dar logo a mesa para sua próxima gorjetinha, coitada, mal sabia que eu estava ali justamente para quebrar sua programação. Eu era a mesa empacada, fazer o que, a coluna estava atrasada e o Marquinhos estava louco para me afogar, o jeito era roubar alguma estória da mesa vizinha.
Do outro lado, sentados quase que robóticamente estava a família Apple. Pai, mãe e filho, todos com seus brinquedinhos. O pai olhava em seu I-phone e mexia sem parar, parecia estar jogando mas deve ser impressão, ninguém sai de casa num domingo com a família, ocupa uma mesa da garçonete simpática e não come, não conversa e nem escreve uma coluna.
A mãe, ultra maquiada e bem vestida, com anéis dourados e dedinhos rápidos nas teclas de seu I-Phone branquinho, recém chegado de Miami, mandava recados sem parar, provavelmente para o amante, não, ela não tinha cara de quem gosta de atrapalhar os cabelos, amaçar a roupa então, nem pensar, deve ser recado para sua melhor amiga, falando sobre as compras que fizeram na ultima viagem.
E o filho concentrado, loirinho engomado, gel nos cabelos, calca social caqui, camisa para dentro e mocacin de couro, ouvia musica em silencio sem se movimentar, de fato era o mais sereno, tinha pinta de ser o manda chuva da família. Agora imagina quantos anos o filho tinha. No maximo cinco!
Assistindo aquela família, desunida pelo mesmo motivo que as uni, a tecnologia, o impessoal, senti medo do futuro.
Bem na minha frente tinha um casal de velhinhos, felizes, cúmplices. Pareciam compartilhar até o silencio. Quando cruzamos o olhar, sorriram para mim como se soubessem da minha invasão e não se importassem, ao contrario, sabiam do meu jogo e já foram também eles muitas vezes espiões de mesas vizinhas. Quem sabe tenham até se conhecido assim. Quem sabe.
O jovem nervoso acendeu um cigarro. Precisava segurar algo para saber o que fazer com as mãos. O telefone não para de tocar e isso o deixa contente. Deve ter acabado de se mudar para um apartamento nos jardins, decorado com lindos livros falsos na biblioteca e uma adega climatizada para 40 garrafas. Deve ter também uma mesa de som onde ele e os amigos brincam de ser DJ, mas pode ser que a cozinha ainda não esteja pronta e como ele não sabe nem fazer café, sai de casa sempre que tem que tomar alguma coisa.
Os robóticos continuavam na mesma. A mulher ainda não parou com as mensagens, o menino só mexe o dedo indicador para passar de uma musica a outra. Lembra-me um pouco o Riquinho. O pai poderia ser um boneco de cera, nem os cabelos se movem. Como seria a casa dessas pessoas? Na certa não têm cachorro e nem nada que ouse mudar a ordem das coisas.
Sinto um pouco de medo. A garçonete simpática deve ter colocado alguma droga na minha bebida para que eu me mande da sua mesa. Começo a imaginar que eles são seres de outro planeta no corpo de humanos.
Melhor ir embora. Vejo uma moça que esta esperando com o cachorrinho, ela parece simpática, teria sido divertido imaginar sua vida.
Pago a conta e sorrio de volta para os velhinhos. Escuto um pedaço da briga do casal que sentava no fundo. Eles estão discutindo a relação. Só eles não sabem que quando se discute uma relação é porque já não existe mais relação nenhuma.
Enquanto espero o carro vejo uma senhora elegante entrar. Ela caminha até a mesa do jovem solitário e abre um grande sorriso ao receber um abraço apertado do menino. Entrega um presente para ele e vai logo arrumando as golas. “Meu filho, parabéns! Você será um grande pai! Fica calmo que tudo vai dar certo, colocamos um bercinho no quarto de som”.
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