24 de Julho de 2008
PARATY
A praça estava mais bonita que no ano passado, cores giravam com o vento deixando um sabor de infância no ar. Dizem que devemos mudar os lugares onde visitamos já que nosso cérebro se acostuma aos estímulos repetidos o que faz com que o tempo pareça passar mais rápido. Tento mudar os lugares aonde vou, mas Paraty é teimosa, me provoca sempre e acabo cedendo, não é culpa dela coitada, tem também essa FLIP que não desgruda do meu pensamento. Às vezes até esqueço e acredito que neste ano será diferente que vou mudar minhas férias, mas aí, vejo uma foto ali, uma reportagem acolá e pronto, cá estou novamente.
Pode ser que você ache tudo isso uma bobagem, mas me diga, quando foi a última vez que você fechou sua mala, seus problemas, sua família e saiu para abrir um capítulo novo num lugar antigo da sua história? Hoje em dia o mundo anda tão rápido que falar em ser feliz virou papo de bicho grilo, de maconheiro com tempo para curtir a bandinha da esquina.
Fica difícil andar e fazer qualquer outra coisa ao mesmo tempo nas ruas de Paraty, o piso de pedras, o tal do pé-de-moleque como dizem os nativos, é traiçoeiro, não perdoa desatenção, parece que foi feito de propósito para que as coisas sejam feitas uma de cada vez.
As palestras são tantas e tão interessantes que logo vem o pânico de não conseguir lembrar-se de tudo, de precisar ir ao banheiro e bem na hora que algum escritor falar a frase mais interessante da tarde. O dia estava tão lindo que dava até pena não pegar um barquinho de pescador e sair por ai. Está vendo só como é difícil ficar feliz por muito tempo: Temos essa mania de sabotar o que esta bom, de querer sempre mudar, melhorar o que se já está perfeito: Mania de gente feliz. Tá vendo como e difícil ficar feliz por muito tempo? O pior e que com a tristeza acontece o contrário: Já repararam como é difícil convencer uma pessoa triste a sair de casa, mudar a rotina?
E já que as ruas são assim, feitas para parar de vez em quando, acabei parando. Vi uma escultura viva de Machado de Assis, o homenageado deste ano, o artesão cortando moedas e fazendo medalhas. Já começava a me perguntar para onde ir quando as pedras e uma música me fizeram parar.
Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel, num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu.. Sentei no degrau de uma loja e vi quando minha infância saiu da harpa junto com as notas da minha primeira professora de música, a tia Elaine. E se faço chover com dois riscos tem um guarda- chuva, com o lápis em torno da mão e me dou uma luva... Os chocolates de cigarrinho, fanta-uva e a vitrola.
Um lágrima escorregou e naquele momento tive a certeza de ser feliz.
  
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