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24 de Junho de 2010

Adolescência Analógica

Trim. Era este o som do telefone. Logo depois o suspense.

Quatro irmãs esperando quarenta mil telefonemas.

O aparelho ficava na sala, o outro na cozinha. Intimidade era coisa de cinema.

Lá em casa todos sabiam quem ligava para quem. Se alguém quisesse sair com uma de nós, era preciso ligar, engolir seco e cumprimentar quem quer que atendesse, normalmente minha mãe.

Nessa via crucies o adolescente sofria, ficava vermelho, ensaiava na frente do espelho e depois via que dava conta do recado. Crescia.

Aos poucos ia virando homem e com o tempo já chegava na casa da namorada com um buquê de flores na mão, não para ela, mas para a mãe. E ali nasciam príncipes e malandros, de qualquer forma aprendiam a andar sozinhos.

A sala de estar era uma espécie de sala da justiça, todos se encontravam depois de suas super tarefas para discutir ou contar suas estórias. A TV, também única na casa mostrava sempre os mesmos programas que serviam como marcadores de tempo. Jantar depois do jornal, cama depois da novela. Ouvir a música do Super Cine era alerta geral. Ou os pais poderiam acordar ou chegar a qualquer momento e ai de quem não estivesse na cama.

Nossa vida parecia mais ritmada, ensaiada. Tínhamos a impressão, e era verdade, de não ser possível deixar para resolver depois. Programávamos tudo minuciosamente. Quando saiamos, marcávamos com antecedência, às vezes dias de antecedência. A ansiedade era diferente. Era boa. Não dava para ficar mudando o programa toda hora, afinal o tal celular ainda estava na ficção. Avisar todo mundo era parte da diversão. De alguma forma a falta de tudo o que hoje nos ajuda a programar nossas vidas, fazia dela muito mais programada.

A realidade era analógica.

De All star e Walkman amarelinho, caminhávamos mais leve. Tirávamos fotos que ficavam guardadas dentro da câmera até revelarem as lembranças de cada momento. Depois, não adiantava inventar moda. Foto, naquela época, não voava de janela em janela. Marcávamos reuniões na casa de alguém. Quase sempre na minha, de preferência ouvindo Barão Vermelho, Paralamas ou Ultraje a Rigor. Nós vamos invadir sua praia!. O Victor meu cozinheiro fazia o melhor bolo de cenoura com calda de chocolate da cidade. A turma se reunia, nossos pais se conheciam, os porteiros, os vizinhos, os donos do mercadinho, as pessoas eram gente de carne e osso e não fotos no computador.

Medo era levar ovos na cabeça no dia do aniversário. Também tinha pavor da cena do gordinho dos Gonnies com a mão no liquidificador. Esta era nossa noção de tortura. A Cuca, do Sitio do Pica-pau Amarelo era o pior monstro. E os smurfes? Da para acreditar que o Gargamel era um vilão?

Nossos heróis, o Juba e o Lula inspiravam os meninos e a Zelda Scott, bem, ela era a subversão das meninas. Como esquecer as faixinhas pretas sobre o corpo nu da mulher mais avançada da minha adolescência. Todas queriam namorados Jubas e Lulas, mas ninguém nunca assumiria o pecado de ser a Zelda. Era demais para aquele tempo.

Era tempo de ter tempo. De sonhar com o nosso futuro e não rezar para que o mundo sobrevivesse ao presente. Era tempo de ir ao cinema assistir Karate Kid e os inesquecíveis Caça Fantasmas. Curtindo a Vida Adoidado também me inspirou muitas loucuras, a pior delas, cabular aula e me esconder no Shopping comendo balinhas das Lojas Americanas.

Os quinze anos se foram junto com os chicletes azedinho doce, cigarrinhos de chocolate pan, pirulito Dip Lik, o Genius, o Atari, e a bala de leite Kids, a melhor bala que existe.

E foi deste mundo onde crianças pulavam amarelinha, jogavam queimada e brincavam de estátua em ruas de portas abertas que nasceu a menina que, de dentro de mim, lembra hoje com saudades de um tempo escondido entre os anos oitenta e noventa, um lugar tão mágico quanto a musica das Olivetti escrevendo nossos sonhos.

 

Giovanna Vilela

 


 


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