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24 de Fevereiro de 2010

As janelas da vida

Num dos últimos livros de Irvin Yalom, Desafios da Terapia, uma de suas pacientes narra o dia em que, ainda menina, viajava com o pai quando ele comentou algo sobre a sujeira das águas de um córrego que acompanhava a estrada. A menina olhou para o lado e viu um córrego limpo e belo. Anos mais tarde, fazia a mesma viagem e notou que o córrego que ficava do seu lado da janela, agora o lado do motorista era realmente feio como seu pai havia descrito. Esta lembrança brotou em seu peito a angustia dos arrependimentos, a dor por entender, tarde demais, pois seu pai já havia morrido que às vezes olhamos a vida por janelas diferentes.

Estava almoçando num restaurante delicioso, o Mani, quando sem querer (adoro fazer isso) escutei a conversa da mesa ao lado. Uma senhora discutia com a filha a forma como seu netinho era “abandonado” em casa. “Não é possível minha filha, porque você não faz como eu fiz, eu nunca tive babá, criei todos os meus filhos, nunca deixei de estar com vocês para ir a uma festa, os filhos são a coisa mais importante da nossa vida, uma mãe não pode estar fora de casa nunca”.

A filha estarrecida com a opinião da mãe, dizia que aquilo era um absurdo, que fazia todos os dias o almoço e jantar do filho, trabalhava em casa, saia pouco e mesmo assim, não via problema em ter vida além da maternidade. Além do mais o filho já era um menino, tinha oito anos.

Mas para a mãe, qualquer outra atividade parecia um absurdo. “Onde já se viu você fazer cursos a noite, como tem coragem de largar seu filho dormindo com a babá?”

Meu prato chegou, um atum no ponto exato, enquanto comia, esqueci de conversar com a minha amiga e continuei ouvindo a filha lutar por uma gota de sensibilidade da mãe. Ao que me pareceu, a filha tomou caminhos diferentes do esperado, largou um marido que nunca a faria feliz, voltou a trabalhar, fez novos amigos e tentou tirar da vida o que tinha de melhor. Me fez lembrar uma personagem da Clarice Lispector que disse uma das frases que mais gosto do livro , “seu coração se encheu com a pior vontade de viver” , a vontade que desafia a vontade dos outros, a vontade que luta, que supera seus limites.

A mãe reclamava que o netinho vivia fazendo passeios estranhos , fazia trilhas, subia em montanhas com a mãe e corria o risco de cair e se machucar, surfava no inverno e podia pegar uma pneumonia.

Neste ponto a filha lembrou a mãe sobre uma frase do filme Nemo onde o pai muito preocupado , reclama do medo de que algo aconteça com seu filho Nemo, um outro peixinho retruca dizendo que a pior coisa para acontecer na vida de alguém é não acontecer nada, como seria uma vida sem cicatrizes, sem quedas, sem problemas, não deseje que não aconteça nada com ele.

A cada defeito que a senhora apontava na filha, mais eu lembrava do livro, da janela. Todos os defeitos daquela mulher de seus trinta anos, para mim pareciam virtudes, mas para sua mãe eram completamente fora de questão.

Aos poucos vi que a filha já não discutia mais. Concordava com a mãe sabendo da diferença entre elas. Sabia que era inútil lutar. A vida das duas continuou naquela estrada de janelas distintas. Senti uma ponta de tristeza ao ver que a mãe talvez nunca soubesse que por trás de seu desgosto, escondia se uma filha com coragem de ser diferente do que lhe foi imposto, de olhar o mundo da sua janela e respeitar a janela da mãe.

Fiquei desejando calada que um dia aquela mãe entendesse a diferença de seus córregos e se permitisse admirar o que não é espelho.

 


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