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21 de Janeiro de 2008

A SOMBRA DO SILÊNCIO

Há pessoas que adoram a solidão. Mas há também as que ignoram estar sós, e estar só quando acompanhada é dor que não acaba mais.

Tenho um prazer quase perverso em assistir à esses mundos. Talvez por estar vendo de fora, do outro lado do muro de silêncio.

Nossas risadas enchiam a mesa redonda de alegria e mostravam a quem se interessasse um universo em movimento,cheio e diversão e cumplicidades, amigos antigos.

De dentro desse mundo assisti quando um casal entrou no restaurante. A mulher loira tinha os cabelos e o humor descorados pela tristeza e o tempo. Ela olhava para baixo a procura do que ficou para trás talvez. O marido parecia mais velho embora o físico atlético enganasse um pouco.
Sentaram-se a mesa ao lado e ficou claro para mim que nossa mesa os encomodava.

Não o barulho, as risadas, mas a vida que derramava do nosso lado e escorria para seus pés.

Nenhuma palavra foi dita por eles, apenas alguns olhares carregados de tensão, um tipo de tensão acumulada e sem esperança de acabar. O garçom se aproximou depois de um sinal feito pelo homem e anotou o pedido, saiu e deixou o deserto sobre a mesa entre eles. Nesse momento não ouvi mais nossos risos, ouvi os gritos mudos que ecoavam da mesa ao lado.

Vi o dia em que ele a pediu em casamento, ainda eram jovens e acreditavam que a vida juntos seria perfeita. Pra ela, além de perfeita seria chance de escapar dos olhos dos pais, além é claro, do gostinho de vitória entre as amigas, seria uma nova etapa na vida dela,uma nova fase onde a maior preocupação seria o marido, a nova casa e os problemas de trabalho, dele é claro. Ele tirou do bolso uma caixinha enquanto pensou em seu último salário, reduzido àquele embrulhinho que agora representava o futuro. Embriagado em parte pelo vinho e um pouco pelo medo, olhou para os olhos ainda iluminados e passou as mãos pelos cabelos dourados da mulher que amava. Sabia o que queria e esta certeza enchia de força suas decisões e suas palavras. Ignorou as mesas ao lado, nem ligou para a invasão de olhares.

Entregou a caixinha e junto a promessa de um amor cheio de surpresas e nisso estava certo. Uma lágrima caiu dos olhos dela e ele pensou na nova vida, uma mulher linda dormindo a seu lado. A facilidade de não ter que leva-la para outra casa depois das taças de vinho, e não esperou mais nada, apenas que tudo ficasse igual só que mais perto.

O garçom passou pela nossa mesa com outra bandeja de chopp e uma água para o casal ao lado, ainda mudo.

Lembrei de um soneto decorado na minha adolescência:

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
Das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Os pratos chegaram e vi quando ela comeu sem sentir sabor, sem saber discernir o ruim do aceitável, o prazer da ilusão. Ele ainda tinha um quê de vida, vida fora dali, onde ainda haviam desafios e prazeres. Não parecia triste, cansado talvez, decepcionado, mas tinha pressa. Cortou a picanha esperando acabar logo a obrigação do final de semana e voltar à vida, à mesa de bar com os amigos, o futebol, o trabalho.
Pagaram a conta, o preço de suas escolhas. Devolveram meu olhar com desprezo e desculpas por estarem do lado de lá, e partiram, como entraram , sem trocar uma só palavra, sem cruzar os olhares sem tentar mudar.

Acesse meu Blog: www.giovannavilela.wordpress.com

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