20 de Agosto de 2008
DIVÃ
Por ter muitos amigos e conviver diariamente com todo tipo de bêbados, boêmios, atletas, intelectuais e neuróticos, acabei com um problema que poderia bem ser tratado por algum louco diplomado, ou psicólogo, afinal quem mais se não um completo maluco para passar a maior parte da vida conversando com doidos como eu?
O problema ou neurose, para usar um termo mais “atual” - já repararam que atualmente até os termos mais simples mudaram? No futebol, por exemplo, o jogador que cai na área e fica fazendo o que para mim é, e sempre será, fita, agora, “valoriza a posse de bola”, é de mais.
Mas voltando ao divã, esta falta de lugar sempre permeou meus dias. Ainda menina quando entrei na primeira série do Colégio Santo Américo vivia perdida sem saber ao certo se eu era mineira ou paulistana. Nasci em São Paulo, e não apenas na capital, nasci na Promatre Paulista. Meus pais e meus 3 irmãos mais velhos nasceram em Minas Gerais, o que contribuía, junto com as freqüentes viagens, para que meu sotaque 100% paulistano desse uma escorregadela vez ou outra. O mesmo acontecia com o sotaque mineiro, que hoje já se mandou faz tempo. No colégio eu era motivo de risadas, me chamavam de mineirinha e em Minas vocês podem imaginar,né...
Superado este, arrumei outros traumas, afinal tinha que ter assunto com o terapeuta. Quem sou eu? Nem Hamlet no auge da sua descoberta da consciência conseguia se perguntar tanto a mesma coisa. A que mundo pertenço afinal?
Adoro estar rodeada de amigos, falar, ouvir (as vezes falar mais, é verdade), tomar uns drinks , de preferência feitos por mim ou pela Roberta (depois de alguns anos como bar tenders em NY, a coisa fica no sangue). Estas características poderiam me dar a certeza de ser uma “baladeira”. Mas não sou!
Detesto baladas,propriamente ditas, musica muito eletrônica então, ta louco. Gosto é de Bossa, de MPB, house ainda vai, mas tem que ser uma festa muito boa. Também não aguento lugares públicos tipo boates, barzinhos (fora o DRY,claro). Festas, só na casa de amigos queridos.
Não agüento cheiro de cigarro e muito menos bêbados amadores, sim porque bêbado profissional, esses todo mundo adora e quer ter como amigo, só amigo,claro. Eles são as melhores companhias do mundo. Podem beber mais de 10 doses, estão sempre bem arrumados, olhos abertos, voz suave e por incrível que possa parecer, até cheirosos. Boêmios tem classe! Diferente dos coitados dos amadores que além de pegar na mão, no ombro, nos nossos cabelos, ainda tem mania de falar altíssimo e bem de perto para que possamos sentir o perfume da decadência.
Aí - conto ao terapeuta - acordo cedíssimo, faço esportes toda manhã, treino com malucos que para obter um resultado maior do corpo são tão eficientes como os boêmios profissionais, sabem manusear o corpo como ninguém, usam e abusam das “suplementos alimentáres” e fazem nós, mortais, parecermos bêbados na hora de correr contra eles.
Como se não bastasse a dúvida entre esportes e boemia, tem ainda a música. Quantas vezes, a caminho da casa da minha professora de piano, passo no Vaca-Véia (bar dos queridos, Luiz, Fabinho, Bianca e Ricardo) e fico naquela dúvida, será que paro e troco uma musica por um pouquinho de conversa fiada? Não, a Beth,minha professora me mantém com rédeas curtas.
Não abro mão de viajar para fazer esporte, pode ser bicicleta, trecking, qualquer coisa, o importante é que tenha muita adrenalina. Meus amigos desse lado do mundo, o lado natureba, não se misturam aos do lado de lá.
Mas continuo aqui, no meio desse liquidificador de mundos...
Eu, do alto do divã, passei anos me perguntando por que eu não poderia ser normal como todos esses loucos que vivem por aí. Cada um tem sua tribo, todos iguais, sem conflitos, pelo menos nada assim, inconcludente, indissolúvel, inescrutável (aqui fecho o dicionário na letra i)?
 Na pior das hipóteses teria problemas facilmente solucionáveis, como meu amigo X que vive o dilema da garrafa no fim. Para resolver isso, boêmio amigo,basta fazer como um grande escritor me contou; Tenha sempre em casa, não uma, mas várias garrafas abertas, uma em cada canto da casa. A garrafa não anda, jamais! Seu copinho sim, vai de canto em canto, bar em bar, sem culpa, sem se dar conta do tamanho do pileque, nem do fim da garrafa.
Assim como o sotaque mineiro, o lado festeiro foi diminuindo, proporcionalmente à idade (que ainda é muito pouca, viu!).
Hoje, sobraram apenas resquícios como de sotaque e o réveillon, onde tanto a adolescência como as festas voltam a toda. Mas aí já é assunto para outra sessão de terapia.
Acesse meu Blog: www.giovannavilela.wordpress.com
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