26 de Dezembro de 2008
TIA GLECI
Criança tem que fazer besteira, dizia minha tia Glecí. Se não fizer papel de boba na infância, quando pode espernear, chorar e dar chilique sem correr o risco de virar chacota, vai ter que aprender adulta e no mundo de “gente grande” as piadas custam caro.
Meu filho tem seis anos e ainda fica bravo quando a prima de oito não quer brincar com ele, acredita que o mundo é feito para seu prazer e qualquer um que fuja dessa realidade está cometendo “uma injustiça”. “Mas eu gosto tanto dela, isso não é justo”, costumo ouvir vez ou outra.
Mas eles são crianças e como dizia minha sabia tia Glecí, melhor ser criança na infância que ridículo no futuro.
Sábado ouvi tia Glecí sair do túmulo para constatar o avesso de seus ensinamentos.
Festa de final de ano. Muita bebida, poucas pessoas. Alguns bebendo para comemorar. Algumas para afogar as mágoas, invejas, dores de cotovelo ou tudo junto.
Um casal namora no canto. O DJ coloca o hit do verão de 2004 e eles vão dançar. A pista bomba. O homem puxa a namorada para perto. “Te amo”. Não cabe nem ar entre eles.
Do outro lado, a ex-namorada pula e dança freneticamente, faz lembrar um pouco minha infância, minha amiga Bubú, que adorava a tia Glecí.
A Bubú era a amiga gordinha que todo mundo teve na escola, no tempo em que se usava furador, liquid-paper e papel carbono, lembra? Rechonchuda mas gente boa. Falava alto, dava gargalhada e era amiga de todos os meninos, pois eles, os amigos gatinhos viam nela outro menino, sem risco nenhum de paquera.
Nos dias de festa, porém, a Bubú sofria. Ficava num canto vendo os amigos tirar para dançar a menina que ela nunca seria e ai usava sua técnica de guerra. Pulava! Pulava e gritava fazendo de tudo para atrapalhar os casais que invejava. Enquanto o Paulo Ricardo e seu olhar 43 abriam caminho para o coração ligado e um bit cada vez mais acelerado, ela ficava lá na era Xuxa, vamos pular, vamos pulara, vamos pular, vamos pular... E no final, coitada, era sempre a mesma coisa. A maior abandonada.
O casal se beija. O homem vai buscar outra bebida para a namorada, que fica na pista dançando sozinha, sozinha não, com seus planos, seu amor, as palavras que acabara de ouvir, a felicidade. Pensa no réveillon, eles vão para Bahia.
O barman demora a servir o namorado que fica impaciente. Ele tem pressa, quer voltar logo para perto de quem demorou tanto para conseguir. Lembra das noites mal dormidas longe dela, de quando tentou esquecê-la, de quando voltou com a ex (a que está pulando como a Bubú). Difícil tentar amar, tentar ser feliz. A bebida chega. Ele olha de longe a mulher que ama. Espera um pouco. Não tem mais pressa. Dá um sorriso para si e pensa no futuro. A outra, saltitante, passa na frente. Olha para ele insinuante. Ele é simpático, bem resolvido. Educado, tenta amenizar o tombo, faz que não vê a falta de classe, a falta de maturidade, a falta que faz não ter uma tia Glecí.
Ele volta para perto da mulher que ama. Abraça sua cintura. Ela não olha para ele. Eles sabem.
A ex pede um whisky duplo. Finge que ri. Finge que se diverte. Finge que é mais ela. Toma um gole. Deveria lembrar do Johnnie e “Keep Walking”. Não lembra. Bebe.
Musica alta. Cerveja. Inveja. Sábia minha tia.
"A inveja é a amargura que se sofre por causa da felicidade alheia." (Cícero)
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