Março/2011
Saber escrever não significa fazer literatura. Escrever é uma grande aventura.
Sou fascinada pela língua portuguesa, mas confesso, suas trilhas me convidam muito mais do que as estradas. Entendo a escrita como um passeio, uma descoberta. Cada ponto é uma parada, um descanso. Há regras, eu sei, mas assim como nas corridas de aventura, minha segunda paixão, também a literatura guarda seus segredos. Nem sempre os que melhor conhecem as regras ganham o jogo. Arrisco até a dizer que um pouco de adrenalina e teimosia são o tempero ideal para quebrar paradigmas e recordes.
Correr no meio da lama, atravessar rios e se perder no mato pode parecer loucura se você não tem um objetivo e uma bússola. A leitura do mapa esconde segredos, me faz lembrar os sertões de Guimarães Rosa. É preciso atenção, conhecimento e uma dose de coragem para aceitar cada sinal, para ler palavras e lugares que não existem.
E foi assim, perdida em Veredas, que me dei conta do quanto meus mundos se encontram em meus maiores prazeres, literatura e esporte. Um dia estava numa prova de aventura e logo na largada encontrei com uma antiga professora de educação física. Era minha segunda prova, provavelmente a 23237 dela. Olhando para mim, perguntou se eu estava ali para assitir. Respondi que não, afinal também eu iria tentar. Esperava apenas conseguir terminar e me divertir, ela contava com a vitória, afinal, técnica era seu nome
Largamos. Minha equipe e eu saímos cantando. Nossos passos fluíram e a vontade de aproveitar o percurso era tanta que o número ao lado do nosso nome na classificação seria apenas um enfeite.
Lendo o mapa, o nosso Camões navegador resolveu ignorar certas convenções. As equipes e suas regrinhas de pontuações e paradas foram por um lado, nós fomos pelo nosso. Com poucos respiros e muita trilha. Do outro lado do rio, entre árvores e pedras enormes, avistei novamente minha ex professora. Olhando para mim, ela disse com aquele sorriso de quem sabe o que fala: Melhor vocês voltarem e fazer de novo o caminho. É a melhor opção quando se erra. Obrigada, respondi. Vou anotar a dica. Continuamos por caminhos diferentes.
Algumas horas depois, já na chegada, depois de tomar muito Gatorade e fazer alongamento, vi novamente a moça das regras. Sua imagem ainda distante, quase chegando. Faltava pouco para cruzar a linha que eu e minha equipe há muito tínhamos passado. Vamos lá treinadora, força. Carregar muitas regras às vezes pesa na mochila e atrapalha nas trilhas. Quem sabe na próxima, mais humildade e menos certeza a ajudem a ir mais longe. Obrigada pela dica, respondi, com a alegria de quem termina mais uma.
  

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